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Não existe capim milagroso capaz de compensar manejo mal feito. Na maioria das fazendas, o melhor capim é o que já está implantado, desde que seja manejado corretamente. O Brasil desperdiça grande parte da forragem produzida por falta de controle de altura e tempo de pastejo. Manejar pasto é respeitar a fisiologia da planta, preservando folhas e sistema radicular para garantir rebrota rápida e vigorosa. Alturas corretas de entrada e saída evitam tanto o capim passado quanto o enfraquecimento da pastagem. Antes de pensar em reforma, o manejo quase sempre entrega mais resultado com menos custo.
Uma das maiores ilusões da pecuária brasileira é a ideia de que existe um capim milagroso, capaz de resolver todos os problemas da fazenda. A realidade é bem menos empolgante e bem mais barata: na maioria das vezes, o melhor capim é o que você já tem. Antes de pensar em gradear, reformar e gastar dinheiro, o primeiro passo deveria ser quase sempre o mesmo: arrumar o manejo.
O Brasil desperdiça capim em uma escala difícil de acreditar. Estimativas técnicas indicam que, em sistemas extensivos mal manejados, menos de 50% da forragem produzida é efetivamente aproveitada pelos animais. O resto vira talo passado, material pisoteado, capim sombreado ou simplesmente perdido por falta de controle de altura e tempo de pastejo. Não é falta de produção. É falta de manejo.
Manejo de pasto, no fim das contas, é respeitar a fisiologia da planta. Capim não é tapete verde nem decoração de fazenda. É uma planta viva, que depende das folhas para fazer fotossíntese e do sistema radicular para rebrotar com velocidade. Quando o pasto cresce demais, ocorre desperdício por senescência, sombreamento das folhas inferiores e queda de qualidade nutricional. Quando o pasto é raspado demais, o animal não está “aproveitando melhor”, está atrasando a rebrota e enfraquecendo a planta.
A lógica é simples: quem manda na velocidade da rebrota não é o adubo, é a folha que sobrou e a raiz que permaneceu viva. Cortar folhas demais reduz a capacidade fotossintética. Forçar a planta a rebrotar usando reservas das raízes, repetidamente, leva à degradação do pasto. Por outro lado, deixar o capim passar do ponto gera talo, lignificação e perda de eficiência do sistema.
Por isso, o manejo correto passa obrigatoriamente por respeitar altura de entrada e altura de saída de cada forrageira. Não é frescura técnica, é economia.
Alguns exemplos práticos ajudam a clarear isso.
No braquiarão (Urochloa brizantha), o ideal é entrar com cerca de 35 a 40 cm e sair deixando 20 a 25 cm. Abaixo disso, a rebrota desacelera; acima, começa o desperdício.
No Andropogon, que tem porte mais alto e crescimento diferente, a entrada costuma funcionar melhor por volta de 50 cm, com saída em torno de 18 a 20 cm, evitando tanto o talo passado quanto o enfraquecimento da touceira.
Já no Tifton, por ser uma forrageira estolonífera e mais rasteira, o manejo é outro: entrada com 25 a 30 cm e saída deixando algo entre 10 e 15 cm, garantindo rápida rebrota.
No Mombaça, o erro clássico é deixar passar demais. O manejo eficiente entra com 80 a 90 cm e sai com 40 a 50 cm. Abaixo disso, a planta sofre; acima, vira um estoque caro de fibra ruim.
Esses números não receitas de bolo, mas referências técnicas que funcionam muito melhor do que o manejo “no olho” ou “no costume”. Quando respeitados, eles aumentam o aproveitamento do capim, reduzem desperdício e, muitas vezes, adiam por anos a necessidade de reforma de pastagem.
Antes de buscar um novo capim, uma nova semente ou uma nova promessa de produtividade, vale a pergunta incômoda: o pasto que já existe está sendo manejado corretamente? Na maioria das fazendas, a resposta honesta é não. E enquanto o manejo não melhora, nenhum capim novo vai fazer milagre.
Na Fazenda Esperança, a lógica é clara: primeiro manejo, depois correção, só então reforma. Capim bem manejado custa menos, produz mais e dá menos trabalho do que qualquer solução vendida como “definitiva”.
Fonte: EMBRAPA Gado de Corte e Gado de Leite; EMBRAPA Forrageiras; CORSI & NASCIMENTO JR., manejo do pastejo; EUCLIDES et al., manejo de gramíneas tropicais; BARBOSA et al., eficiência de colheita da forragem; dados e recomendações técnicas difundidas por universidades federais (UFU, ESALQ/USP) e sistemas de produção de pastagens no Brasil.